A Cachorra – Pilar Quintana

A colombiana Pilar Quintana narra a história de vida de Damaris a partir de sua relação com sua cachorra de estimação. Relação que muda bastante quando esta fica prenha.

Este livro de pouco mais de 100 páginas é impossível de largar. Quintana tem o mesmo fascínio que Elena Ferrante. Não só pelo tema da maternidade pontuar toda a história, mas pela sinceridade extrema no trato do feminino na literatura que é de uma crueza magnífica.

Já estou de olho em outras obras suas, que infelizmente ainda não foram lançadas no Brasil. “Caperucita se come al lobo”, algo como, “Chapeuzinho Vermelho come o Lobo Mau”, que parece ser um livro de contos sobre relacionamentos, e “Los Abismos”, que traz uma garotinha observando o relacionamento complicado de seus pais – ganhador do Prêmio Alfaguara de 2021. Eu não poderia estar mais ansiosa por essas leituras. Agora, aparentemente, além de ser portadora da febre Ferrante, também tenho a febre Quintana.

Ivan Turguêniev e “Pais e Filhos”

Pais e Filhos é uma das obras mais polêmicas de toda a literatura russa e uma das poucas a transpor pragmaticamente a tênue barreira entre ficção e realidade. Escrita por Ivan Turguêniev (1818-1883) e publicada orginalmente em 1862, o livro trouxe à tona debates considerados perigosos em uma época de grande perturbação social, especialmente no campo. O romance narra a tragédia existencial de um homem inteligente e repleto de qualidades morais, Bazárov, que se propusera a viver uma vida niilista, livre de crenças e moralismos, uma espécie de rebeldia que “não se inclina a nenhuma autoridade nem aceita nenhum princípio sem exame”. O niilista, diz o jovem, “é uma pessoa que não se curva diante de nenhuma autoridade, que não admite nenhum princípio sem provas”. O que ele não consegue, de fato, levar a cabo, tornando-se extremamente amargurado.

Turguêniev analisa a crise social russa no momento mesmo em que esta ganhava forma – uma Rússia presa a uma economia agrária e feudal e sedenta por reformas. Mas as opiniões se dividiam entre os “filhos”, a geração jovem pró-ocidentalização, e os “pais”, conservadores da manutenção das antigas tradições.

Pouco depois da publicação do livro, iniciou-se na Rússia uma série de atentados e movimentos decorrentes da crise social por que passava o país. Apesar de não haver relação direta com o niilismo dos personagens de Pais e Filhos, houve quem responsabilizasse Turguêniev pela situação, o que o fez trocar a Rússia e fixar-se na Alemanha.

Revista Bravo!

Senhor das Moscas – William Golding

Sempre ouvi falar bastante desta obra e nunca assisti a nenhuma de suas adaptações cinematográficas. Acabei com minha curiosidade.

“Senhor das Moscas” é o livro mais conhecido do ganhador do Nobel, William Golding. O autor foi da marinha durante a Segunda Guerra Mundial. Depois do conflito se tornou professor e escritor. A obra de 1954 fez bastante sucesso nos anos 1950 e 1960.

Durante a Guerra, um grupo de meninos sofre um acidente de avião e fica isolado em uma ilha deserta. Sem a figura de um adulto, surgem conflitos pelo poder e a crueldade humana está livre para se manifestar. Tudo isso temperado com medo, crendices e agressividade.

O título do livro é a tradução do nome Belzebu – um dos anjos caídos que é relacionado tradicionalmente com orgulho e violência. Dito e feito, temos isso durante toda a história. Belzebu está presente.

Golding narra com fluidez e consegue nos chocar mesmo sem expor com detalhes as atrocidades cometidas. O grande tema é o fim da inocência, o que é exposto no final belamente escrito.

A escolha do Rei Arthur

Mais um texto encontrado nos meus arquivos esquecidos. Um amigo digitou o texto e entregou para nós, suas amigas, há milênios. Um abraço, Edivaldo.

O jovem Rei Arthur foi surpreendido pelo monarca do reino vizinho enquanto caçava furtivamente em um bosque. O Rei poderia tê-lo matado no ato, pois tal era o castigo para quem violasse as leis da propriedade, contudo se comoveu ante a juventude e a simpatia de Arthur e lhe ofereceu a liberdade, desde que no prazo de um ano trouxesse a resposta a uma pergunta difícil. A pergunta era: O que realmente as mulheres querem?. 

Semelhante pergunta deixaria perplexo até ao homem mais sábio, e ao jovem Arthur lhe pareceu impossível de respondê-la. Contudo aquilo era melhor do que a morte, de modo que regressou a seu reino e começou a interrogar as pessoas. À princesa, à rainha, às prostitutas, aos monges aos sábios, ao palhaço da corte, em suma, a todos e ninguém soube dar uma resposta convincente. 

Porém todos o aconselharam a consultar a velha bruxa, porque somente ela saberia a resposta. O preço seria alto, já que a velha bruxa era famosa em todo o reino pelo exorbitante preço cobrado pelos seus serviços. 

Chegou o último dia do ano acordado e Arthur não teve mais remédio se não recorrer a feiticeira. Ela aceitou dar-lhe uma resposta satisfatória, com uma condição, primeiro aceitaria o preço. Ela queria casar-se com Gawain, o cavaleiro mais nobre da mesa redonda e o mais intimo amigo do Rei Arthur! 

O jovem Arthur a olhou horrorizado: era feiíssima, tinha um só dente, desprendia um fedor que causava náuseas até a um cachorro, fazia ruídos obscenos,…nunca havia topado com uma criatura tão repugnante. Se acovardou diante da perspectiva de pedir a um amigo de toda a sua vida para assumir essa carga terrível. Não obstante, ao inteirar-se do pacto proposto, Gawain afirmou que não era um sacrifício excessivo em troca da vida de seu melhor amigo e a preservação da Mesa Redonda. 

Anunciadas as bodas, a velha bruxa, com sua sabedoria infernal, disse: O que realmente as mulheres querem é: 

Serem soberanas de suas próprias vidas! 

Todos souberam no mesmo instante que a feiticeira havia dito uma grande verdade e que o jovem Rei Arthur estaria salvo. 

Assim foi a ouvir a resposta, o monarca vizinho lhe devolveu a liberdade. Porém, que bodas tristes foram aquelas… Toda a corte assistiu e ninguém se sentiu mais desgarrado entre o alivio e a angústia, que o próprio Arthur. Gawain, se mostrou cortes, gentil e respeitoso. A velha bruxa usou de seus piores hábitos, comeu sem usar talheres, emitiu ruídos e um mau cheiro espantoso. 

Chegou a noite de núpcias. Quando Gawain, já preparado para ir para a cama aguardava sua esposa…Ela apareceu como a mais linda e charmosa mulher que um homem poderia imaginar! Gawain ficou estupefato e lhe perguntou o que havia acontecido. A jovem lhe respondeu com um sorriso doce, que como havia sido cortês com ela, a metade do tempo se apresentaria com aspecto horrível e a outra metade com aspecto de uma linda donzela. 

Então ela lhe perguntou. Qual ele preferiria para o dia e qual para a noite? Que pergunta cruel… Gawain se apressou em fazer cálculos… Poderia ter uma jovem adorável durante o dia para exibir a seus amigos e a noite na privacidade de seu quarto uma bruxa espantosa ou quem sabe ter de dia uma bruxa e a uma jovem linda nos momentos íntimos de sua vida conjugal. 

O nobre Gawain respondeu que a deixaria escolher por si mesma. Ao ouvir a resposta ela anunciou que seria uma linda jovem de dia e de noite, porque ele a havia respeitado e permitido ser dona de sua vida. 

Moral da história: Não importa se a mulher é bonita ou feia, boa ou má, no fundo, é sempre uma bruxa…

Ela se transformará de acordo com a forma que você a tratar.

Um caminho para a liberdade – Jojo Moyes

Pela primeira vez em muitos anos peguei um livro emprestado para ler. O escolhido foi o fofo “Um caminho para a liberdade” da famosa e ainda não lida por mim, Jojo Moyes.

A autora britânica já publicou diversos livros e possui uma série famosa chamada “Como eu era antes de você”. Nunca li, mas já vi o filme que cobre a história do primeiro livro e é bem emocionante, tem um galã lindo e uma trilha sonora legal. Além é claro de uma protagonista fora das convenções.

Protagonistas femininas fora das convenções devem ser a especialidade da escritora que colocou diversas mulheres como protagonistas deste “Um caminho para a liberdade”. Cada uma delas tem seus motivos para participar do projeto de uma biblioteca a cavalo no Kentucky nos anos 1930. Para isso enfrentaram toda uma cidade preconceituosa e violenta.

A história inspirada em eventos reais é fluida, cheia de romances e reviravoltas, lágrimas e risadas. O que há para não gostar, não é mesmo? Não mudará a sua vida, mas te divertirá por algum tempo. Uma leitura excelente para sair de uma ressaca literária ou ler naquelas férias em algum hotel fazenda.

P.S.: Faz parte das capas maravilhosas da editora Intrínseca, aquelas que nenhuma foto é capaz de fazer jus a sua beleza.

Se você está infeliz

Quando estudava inglês na adolescência tivemos um texto sobre um pardal infeliz que jamais esqueci. Outro dia, fazendo uma faxina “daquelas”, encontrei o texto e vou deixá-lo aqui para vocês também. Historinha curta e cheia de ensinamentos sem perder o bom-humor.

Once upon a time, there was a nonconforming sparrow who decided not to fly south for the winter.

However; soon the weather turned so cold that he relunctantly started to fly south. In a short time ice began to form on this wings and he fell to earth in a barnyard, almost frozen.

A cow passed by and crapped on the little sparrow. The sparrow thought it was the end. But, the manure warmed him and defrosted his wings.

Warm and happy, able to breathe he started to sing. Just then a large cat came by and hearing the chirping, investigated the sounds.

The cat cleared away the manure, found the chirping bird, and promptly ate him.

THE MORAL OF THE STORY

1 – Everyone who shits on you is not necessarily your enemy.

2 – Everyone who gets you cut of the shit, is not necessarily your friend.

3 – And, if you’re warm and happy in a pile of shit, keep your mouth shut.

Anne of Green Gables – Lucy M. Montgomery

Minha mãe está assistindo a muitas séries e filmes na Netflix durante a quarentena. Uma de suas séries favoritas – não só dela como do meu irmão também – foi “Anne with an E”, baseada nos livros clássicos canadenses da escritora Lucy Maud Montgomery. Já que sou mais chegada em leituras do que em séries, decidi ler o primeiro livro que estava gratuito na Amazon.

Um casal de irmãos decide adotar um menino e o encomenda a uma conhecida, mas há um engano e recebem uma órfã tagarela. A partir daí a autora usa de muita ternura para contar a história de adaptação da menina a sua nova família e à nova cidade com muitas doses de encrenca que ela parece atrair. Uma história familiar e encantadora que, não à toa, encanta pessoas de todas as idades e interesses.

Atualmente, toda a série de livros pode ser encontrada em diversas edições. Ótimo presente!

Ópera dos Mortos – Autran Dourado

Projeto 50 Clássicos Brasileiros #15

Não é fácil resumir “Ópera dos Mortos” de Autran Dourado. O autor opta por monólogos internos e fluxo de consciência para contar uma história de solidão e orgulho no interior de Minas Gerais. Estes sentimentos envolvem a família mais rica de uma cidadezinha que tanto marcam os outros habitantes, quanto trazem infelicidade para a descendência. Não vale a pena saber mais sobre a história do que isso.

O que vale a pena é conhecer Autran Dourado, um fantástico escritor que eu, como mineira, tenho vergonha de reconhecer que não conhecia. Acho que foi falha do ensino aqui de Minas Gerais não nos ter apresentado um autor de tanta qualidade nascido em uma cidade (Patos de Minas) tão próxima à minha. Autran foi ganhador do Jabuti, do Camões e do Machado de Assis e esta obra foi reconhecida pela UNESCO como representativa da Literatura Universal. Ainda bem que tive a possibilidade de conhecê-lo graças ao Projeto.

Ópera dos Mortos é um livraço que aposta no aspecto psicológico para narrar uma história em que, somente na aparência, não acontece nada demais. Uma enorme e grata surpresa.

Curiosamente, é o segundo livro nesse início de ano que explora a influência de pais mortos sobre seus descendentes e ambas são magistrais. A outra foi Hamlet que também tem post no blog.

O próximo livro do Projeto é de uma autora que sempre quis conhecer. Acho que intuí que o livro seria sorteado este ano porque o comprei recentemente:

Com um romance de vários narradores, a escritora se consolidou como um dos principais nomes da prosa contemporânea do Brasil.

Doze Contos Peregrinos – Gabriel García Márquez

O difícil ano de 2020 passou e percebi que não havia lido um dos autores que mais me desafiam, Gabriel García Márquez. O desafio não é sua marca de usar o realismo fantástico ou mágico, porque isso eu adoro, mas o de ser o autor de um dos meus livros da vida, “Cem Anos de Solidão”, e de um que não gosto, “O Amor nos Tempos do Cólera”. Afinal, o que me encanta tanto no autor?

A resposta ficou mais clara com o livro de contos “Doze Contos Peregrinos”. Composto de 12 contos que focam em passagens na vida de imigrantes, o livro tem histórias excelentes e outras chatas como todas as outras coletâneas de contos que você lerá na vida. Os rascunhos desses contos foram guardados por muitos anos, perdidos, reescritos, abandonados e retomados inúmeras vezes.

Enfim, a explicação para o meu amar “Cem Anos de Solidão” e desprezar “O Amor nos Tempos do Cólera” é a seguinte: não gosto de histórias focadas em homens obsessivos e desrespeitosos com mulheres e nem de realismo fantástico usado de forma preguiçosa e amo as histórias em que Gabo constrói personagens femininas encantadoras, inspiradoras e o realismo fantástico coroa tudo com um toque poético, doloroso e potente. A receita vencedora leva a histórias marcantes e surpreendentes e levou ao melhor conto da coletânea, o incrível “Maria dos Prazeres”. Com uma protagonista brasileira e septuagenária que vive na Espanha temos uma história que exala vida, mesmo tratando de temas pesados. Apenas leia. Sensacional.

Há outras histórias boas e com reviravoltas surpreendentes, já que muitos dos contos foram pensados ou para a televisão ou para o cinema. No entanto, nenhum deles é tão bom quanto “Maria dos Prazeres”. Os traços latino-americanos nunca são abandonados por Gabo e nos identificamos com diversos comportamentos das personagens.

Menciono o típico relacionamento entre políticos e povo no nosso continente no primeiro conto, “Boa viagem, senhor Presidente”; a religiosidade com deturpações em “A Santa”; a misoginia e o assombro em “Só vim telefonar”, as superstições de “Assombrações de agosto”, as surpresas de “O verão feliz da senhora Forbes” e o realismo fantástico sensacional de “O rastro do teu sangue na neve”.

Quando falamos de Gabo, nos lembramos de seu ex-amigo, o também escritor, Vargas Llosa e do rompimento misterioso de ambos. A temática de imigrantes aqui dos contos, me fez lembrar do único livro que li de Vargas Llosa, “Travessuras da Menina Má”. Sempre soube que prefiro Gabo, de longe, já que a ideologia de cada um transparece em sua escrita, e, como Gabo, estou bem à esquerda de Llosa. “Travessuras…” e “Doze…” são a prova disso. Llosa foca em personagens que querem se afastar de sua latinidade, Gabo naqueles que não poderiam fazê-lo nem se quisessem.

Gostei bastante de conhecer o lado contista de Gabo e de ter lido um conto tão marcante quanto “Maria dos Prazeres”.

Por que não é uma boa voltar às aulas neste momento?

Estamos há quase um ano em uma quarentena mal feita. Estamos com pouca paciência. Mas não devemos nos apressar e fingir que tudo acabou porque algumas vacinas estão chegando ao país.

As doses ainda são insuficientes para todos. A nova cepa não é combatida pelas vacinas existentes. O governo federal continua jogando contra a população: não haverá mais auxílio, mas 3 bilhões de reais foram destinados a emendas parlamentares para conseguir eleger seus candidatos no Congresso que são contrários ao impeachment, por exemplo.

As crianças parecem sofrer menos com o vírus, mas em uma escola há adultos trabalhando e que podem perder suas vidas ou sofrer sequelas terríveis. Ainda é cedo para afirmar se as crianças desenvolverão alguma sequela depois de algum tempo ou não.

O filósofo Paulo Ghiraldelli apresenta outros motivos importantes para não deixarmos que mais essa barbárie aconteça: