Balanço de leituras 2021

Quantidade de livros lidos: 57 livros e 4 quadrinhos.

Quantidade de páginas lidas: 14.729.

1 – Melhor capa: Achei a capa de “Os vestígios do dia” de Kazua Ishiguro muito bonita. É preciso dizer que o corte no mesmo cobre da capa ajuda bastante. Uma capa belíssima de Alceu Chiesorin Nunes com ilustração de Pedro De Kastro e edição da Companhia das Letras.

2 – Melhor título: Num ano em que li “Coração das Trevas”, achei que a vitória deste estava garantida, mas chequei todos os títulos e no início do ano li o fantástico “Ópera dos Mortos” de Autran Dourado e percebi que este é ainda mais potente para mim. Surpresa!

3 – Escritora favorita do ano: Li autoras incríveis esse ano, mas devo destacar Lygia Fagundes Telles de quem li “As meninas” e fiquei impressionada. Desconfio que é a melhor escritora brasileira, apesar da grande propaganda que é feita em cima de Clarice Lispector. Dentre as estrangeiras, fiquei impressionada com a colombiana, Pilar Quintana e seu “A Cachorra”. Estou de olho em outros livros dela.

4 – Maior livro lido: Achei que o maior livro lido seria o magnífico “Os Sertões” de Euclides da Cunha, mas foi o incrível “Moby Dick” de Herman Melville – pelo menos nas edições em que li.

5 – Um livro que me decepcionou: Sem sombra de dúvida, o livro de poesias de Lubi Prates, “Um corpo negro”. Começa muito bem, mas não leva muito tempo para descambar para identitarismo e isso só prejudica o movimento negro, ao invés de apoiá-lo – bem como qualquer outro movimento que lute por direitos na sociedade. Se você procura autoria negra sem identitarismo, indico o excelente “Identidade” de Nella Larsen, que é muito bem escrito.

6 – Um livro que me surpreendeu:
Acho que esse ano não vou conseguir escolher. Não imaginei que fosse gostar tanto de “Hamlet”. Descobri Autran Dourado que foi um escritor da minha região e saí da escola sem tê-lo lido e seu fantástico “Ópera dos Mortos”. Pilar Quintana me deixou sem fôlego com “A Cachorra”. A escrita de Lygia Fagundes Telles em “As meninas” me deixou boquiaberta. “Moby Dick” tem muito mais camadas do que a premissa nos leva a acreditar. Euclides da Cunha e o seu espetacular “Os Sertões” são duas glórias do Brasil. E o que dizer de “Tudo é rio” de Carla Madeira?

7 – Personagem favorito mais recente: Pode ser que esteja influenciada ainda pela leitura recente, mas Kurtz de “Coração das Trevas” de Joseph Conrad assombra toda a novela e quando aparece ainda consegue assustar. Ah, o horror, o horror da alma humana!

8 – Um livro que me fez chorar:
Não chorei muito com o livros esse ano. Lembro que me emocionei bastante com “Os Sertões” e com o sensível mangá “O cão que guarda as estrelas”.

9 – Livro de um autor nacional que nunca havia lido antes: Autran Dourado, que apesar de mineiro, havia escapado ao meu radar e não fez parte da minha formação nas escolas mineiras. “Ópera dos Mortos” é divino.

10 – Um livro que me deixou feliz: “Doze contos peregrinos” traz um grande conto de Gabo, onde ele volta a mostrar o seu melhor enquanto escritor na minha opinião: uma personagem feminina muito bem construída e encantadora (brasileira ainda por cima) em uma história em que o realismo fantástico está muito bem urdido ali. O conto é o maravilhoso “Maria dos Prazeres”.

Viagem ao redor do meu quarto – Xavier de Maistre

Assim que soube que Machado de Assis, meu escritor favorito, gostava e se inspirou em Xavier de Maistre, eu tive que comprar o livro para ler. Xavier era um conde que se envolveu em um duelo e foi condenado a passar 42 dias encerrado em seu quarto.

Em menos de 90 páginas divididas em 42 capítulos, ele escreve sobre como passou os dias aproveitando seu quarto enquanto um universo e nesse processo se descobriu duplo: uma parte ele chama de animal e a outra, de alma. Sua prosa é cheia de ironias, bom humor, citações e isso deve ser um dos motivos de Machado ter gostado de sua obra e se inspirado.

Segundo o texto complementar de Enrique Vila-Matas, outro que usa desse texto em seu trabalho é Borges em “O Aleph”. Vila-Matas aponta outras obras que teriam sido influenciadas por de Maistre, incluindo Robert Louis Stevenson e o seu “O médico e o monstro”.

Lançado em 1794, “Viagem ao redor do meu quarto”, tem um texto muito fluido e cheio de leveza e belas passagens – o meu livro está cheio de marcações. A edição da Editora 34 está muito bonita e bem cuidada. É uma pequena joia da literatura, que vale ser revisitada com certeza. Fechei muito bem o meu ano de leituras com ela.

Encantador país da imaginação, tu, que o Ser benfeitor por excelência destinou aos homens, para consolá-los da realidade, chegou a hora de te abandonar. – É hoje o dia em que certas pessoas, de quem dependo, pretendem devolver minha liberdade, como se a tivessem tirado de mim! Como se estivesse em seu poder subtraí-la de mim por um único instante e me impedir de percorrer à vontade o vasto espaço sempre aberto diante de mim! – proibiram-me de percorrer uma cidade, um ponto; mas deixaram-me o universo inteiro: a imensidão e a eternidade estão às minhas ordens.

Pedro Nava e Baú de ossos

Na noite de 13 de maio de 1984, Pedro Nava termina de elaborar discurso que faria, dias depois, na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Seria honrado com o título de Cidadão Fluminense. Por volta das 20h, o telefone toca e a mulher atende. Um desconhecido queria falar com Nava. Depois de ouvir em silêncio o que o interlocutor lhe diz, o escritor desliga. Conta à esposa tratar-se de um trote de mau gosto. Às 22h, sai de casa, para não voltar. Mais tarde, é visto sentado à calçada, cabisbaixo em meio ao movimento de prostitutas e travestis. Às 23h30, um tiro ecoa na rua da Glória.

Pouco antes de completar 81 anos de idade, Pedro Nava havia se suicidado com um tiro na cabeça, e o Brasil perdeu o seu grande memorialista. Médico e cientista, Nava foi um escritor singular. Até 1972, só havia publicado poemas esparsos – como O Defunto, que saiu na Antologia dos Poetas Bissextos (1946), organizada por Manuel Bandeira. Naquele ano, porém, sacudiu o meio literário nacional com o lançamento de Baú de Ossos – primeiro volume de sua prosa memorialista, que seria seguido por Balão Cativo (1973), Chão de Ferro (1976), Beira-Mar (1978), Galo-das-Trevas (1981) e O Círio Perfeito (1983).

Nascido em Juiz de Fora, em Minas Gerais, em 1903, foi amigo de poetas, escritores e artistas plásticos. Mesmo antes de se formar em medicina pela Universidade de Minas Gerais, em 1927, participou de grupo de amantes da literatura, como o que se formou em torno de A Revista (1923), publicação de vanguarda que contava com Carlos Drummond de Andrade e Martins de Almeida. Em 1924, encontrou-se com a caravana modernista, da qual faziam parte Mário e Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, que mostrava o Brasil ao poeta francês Blaise Cendrars (1887-1961). Essa vida intensa seria, depois, tema de seus volumes de reminiscências, principalmente dos primeiros.

As memórias de Pedro Nava foram um acontecimento literário na década de 1970. Sua estreia com Baú de Ossos foi comparada ao lançamento das obras de João Guimarães Rosa, em 1946 e 1956, como se pode perceber pelo seguinte comentário de Carlos Drummond de Andrade: “Pedro Nava surpreende, assusta, diverte, comove, embala, inebria, fascina o leitor com suas memórias de infância, a que deu o título de Baú de Ossos“.

O escritor revive pessoas e lugares, abrangendo o panorama social de várias regiões brasileiras. A descrição parte do Nordeste, de onde remontam as raízes de seu clã e detém-se no Rio de Janeiro. A narração deste volume termina em Minas Gerais, onde cessa, por ora, o movimento das famílias que se entrelaçam. Continua Drummond: “[A vida] não o despojou da faculdade, meio demoníaca meio angélica, de instaurar um mundo de palavras que reproduza o mundo feito de acontecimentos. Antes o enriqueceu com dolorida e desenganada, mas, ainda assim, generosa experiência do humano.

Revista Bravo!

Coração das Trevas – Joseph Conrad

Projeto 100 livros essenciais da literatura mundial #9

Joseph Conrad é um caso particular na literatura. Polonês de nascimento, resolveu se tornar marinheiro ainda na adolescência e testemunhou as mudanças na navegação, aprendeu o inglês tão bem que sua obra foi escrita no idioma e viu as mudanças no mundo muito de perto. Está entre aqueles pensadores que viram o quanto o Capitalismo é nocivo para espírito humano ainda no século XIX, já que “Coração das Trevas” foi publicado em três partes em uma revista em 1899 e depois como livro em 1902.

Seu trabalho literário tratou de deixar isso muito claro, assim como Marx o fez em seu escritos de fundamentação econômica. Conrad elaborou uma novela imersiva onde há dois narradores, um que ouve Marlow contar sua viagem ao Congo – note que o país nunca é citado nominalmente – e o próprio Marlow, recordando como foi sua primeira subida no rio Congo a procura de um funcionário exemplar de uma companhia na conquista de marfim, Kurtz, que teria enlouquecido – ou será que atingira a mais completa sanidade?

O espectro de Kurtz percorre toda a narrativa até que aparece na terceira parte da obra já completamente corroído pelas trevas. Não, as trevas não são os negros, nem as noites na mata fechada do Congo, mas sim a própria alma de Kurtz. É a alma humana devassada pelos sentimentos de poder e ódio provocados pelo imperialismo colonizador e o desespero causado por tudo isso. Kurtz mergulhou no próprio coração, no coração das trevas e, por isso, só pode ter um fim: “O horror, o horror!” de descobrir como foi fácil se tornar um monstro.

Assim como no livro “Vitória”, outra obra que li do autor, a narrativa começa bem lenta e desinteressante até que nos vemos envolvidos na história e precisamos saber o final, mesmo que este seja chocante. “Coração das trevas” não é um trabalho perfeito, mas aquilo que revela é tão importante que as pequenas falhas desaparecem e Kurtz se torna inesquecível e a obra excepcional. Afinal, quem de nós quer repassar a vida nos segundos finais e perceber o horror na própria alma? Mantenham-se sempre em alerta, portanto.

Com certeza. um dos livros que todos deveriam ler. Não morram sem fazê-lo. Aparece na lista da revista Bravo! na posição 31 e hoje está na posição 24 na lista do site thegreatestbooks.org. Impressionante!

O próximo livro sorteado é um que espero para ler há muito tempo:

Complexa, arrojada e multifacetada, obra do escritor russo foi proibida e causou polêmica por abordar tema tabu da pedofilia.

Terra das Mulheres – Charlotte Perkins Gilman

Eu já havia lido o fantástico conto “O papel de parede amarelo” de Charlotte Perkins Gilman, considerada uma das primeiras escritoras feministas. Ela, com certeza, impulsiona os temas caros ao feminino e enterrados pela sociedade patriarcal. No conto, ela narra os desafios psicológicos vividos por uma jovem oprimida pelo marido médico que insiste em saber mais sobre seu estado do que ela mesma com resultados trágicos.

Neste, “Terra das Mulheres”, ela cria uma utopia onde há um país cujas habitantes são somente mulheres, livres das normas patriarcais, são ativas, fortes, unidas em torno de criar suas filhas, grandes professoras e curiosas. Provavelmente, influenciada pelos relatos sobre as índias icamiabas, guerreiras arqueiras que só criavam suas filhas, entregando os filhos aos pais para serem criados na Amazônia. Aliás, é a existência delas que inspirou o nome do maior de nossos rios e do maior de nossos estados. Infelizmente, o último registro feito sobre elas é de 1967 e hoje muitos as consideram lendas. Será? Eu acho que existiram, os relatos sobre elas trazem muitos detalhes.

As mulheres de Gilman não são arqueiras, mas como fazem todas as atividades são bastante atléticas e fortes, porém ficaram sem ter homens entre elas por dois milênios e precisam aprender a conviver com os três que invadem o território delas, mais por curiosidade que por real necessidade. É claro que os rapazes se apaixonam e vemos os diferentes desdobramentos para cada casal de origens tão distintas.

O trabalho de Charlotte foi usado como base para a criação da Mulher-Maravilha, principalmente, o nome da heroína, sua força e sua criação feita somente por mulheres. As grandes diferenças dizem mais respeito a aparência, na obra de Gilman elas não cultivam longos cabelos e usam roupas mais práticas para suas atividades de cultivo e estudo.

Gostei bastante da leitura de “Terra das Mulheres” e recomendo a leitura, nem que seja só para imaginar uma outra realidade. Esse é o principal papel das utopias impulsionar mudanças, a partir de se sonhar outra realidade.

Joseph Conrad e Coração das Trevas

Jósef Teodor Konrad Korzeniowski (1857-1924), ou Joseph Conrad é um fenômeno da literatura – um autor que alcançou a perfeição artística num idioma que não era o seu. De família polonesa, nasceu na Podolia, província ucraniana dominada pelo Império Russo. Era filho único de um nobre proprietário de terras de espírito letrado, condenado ao exílio por se rebelar contra os czares.

Conrad tinha pouco mais de 3 anos quando seu pai foi mandado para o norte da Rússia. A mãe não resistiu às privações, morrendo quando ele tinha 6 anos. Perdeu o pai aos 12. Aos 15, sob a tutela de um tio agricultor, surpreende os familiares com a ideia de ser marinheiro. Em seis anos ingressaria na marinha mercante inglesa.

Já dominava o francês e viria a aprender o inglês como capitão de modestos veleiros onde trabalhou pelos 16 anos seguintes. Viu de tudo em portos remotos dos sete mares. Em 1890, comanda pela primeira vez um navio a vapor no Congo Belga, testemunhando um dos períodos mais sangrentos da história africana. Estima-se que a população local, escravizada na atividade de extração de marfim, tenha sido reduzida à metade. A viagem serviria de matéria-prima para a novela Coração das Trevas, publicada em 1902, quando Conrad já havia deixado os navios para dedicar-se aos livros.

Em Coração das Trevas, o narrador, Marlow, é encarregado de subir um rio até o posto comandado por Kurtz, um europeu que teria enlouquecido em meio aos nativos. Marlow exprime-se em uma linguagem reticente, incapaz de antecipar os fatos – o que determina a criação de um suspense denominado pelo crítico inglês, F. R. Leavis de “delayed decoding”, istó é, decodificação atrasada. O leitor não consegue discernir com precisão o que está sendo narrado. Mas essa expectativa não é o preparo para um clímax qualquer, como o aparecimento de um bicho ou uma pessoa. Conrad manipula a imprecisão para expressar atmosferas ambíguas e conflitos que não se reduzem a uma única e simples explicação.

Kurtz só aparece nas últimas páginas da obra, embora sua figura domine toda a narrativa. Esse personagem, louco ou lúcido demais, equilibra-se na linha tênue entre civilização e barbárie. Suas palavras finais resumem a história colonial da África: “O horror, o horror”. A história inspiraria o diretor de cinema Francis Ford Coppola, que transformou a exploração comercial do Congo Belga em outra insana aventura imperial. Em Apocalypse Now (1979), a ação se passa durante a malograda intervenção militar americana no Vietnã.

Conrad viveu em um período de transição do capitalismo e do colonialismo britânico: a passagem da navegação a vela para a era do vapor. “O seu mundo heroico é a civilização dos veleiros dos pequenos armadores, um mundo de clareza racional, de disciplina no trabalho, de coragem e dever contrapostos ao mesquinho espírito do lucro”, sintetiza o escritor e crítico literário Italo Calvino.

Louvado como autor cujo tema principal é o herói solitário em tensão com o acaso, Conrad traz personagens que logram permanecer fiéis a si próprios em situações inesperadas. Fidelidade é a palavra-chave que o escritor escolheu para definir sua obra, desde os livros mais famosos, como “Lorde Jim” (1900) e Nostromo (1904), até suas narrativas de menor extensão. Conrad, chamado por Virginia Woolf de “hóspede ilustre” da literatura inglesa, escreveu 13 romances, dois volumes de memórias e 28 novelas.

Revista Bravo!

Mulheres que correm com os lobos – Clarissa Pinkola Estés

A leitura de “Mulheres que correm com os lobos” fez parte do projeto de leitura coletiva do canal “Literapia & uns buquês de etceteras” da psicológa Laura no YouTube. O projeto original era ler um capítulo por mês até março de 2022, mas no final do ano, senti vontade de terminá-lo e acelerei. Eu havia me proposto a ler um livro sobre a obra de Jung, teórico que a a autora segue, porém a leitura não estava acrescentando nada à compreensão de “Mulheres…” – que não é nada difícil como alguns insinuam – e abandonei tal apoio.

Já havia lido “A ciranda das mulheres sábias” no final do ano de 2019 – experiência que adorei – onde Clarissa usa da observação das mulheres de sua família para demonstrar a sabedoria inata das mulheres. Em “Mulheres que correm com os lobos”, ela volta a usar membros da sua família, mas acrescenta depoimentos de outras pessoas na análise de histórias ancestrais, ligando-os ao arquétipo da mulher selvagem, uma parte da psique feminina que proporciona uma melhor experiência da vida feminina. Infelizmente, algumas mulheres estão tão perdidas que parecem acreditar que a autora defende que só essa capacidade seja importante na vida das mulheres. Não é verdade. É uma parte importante, mas não a única faceta feminina, que é extremamente complexa.

Não é tão difícil compreender por que as velhas florestas e as mulheres velhas não são consideradas reservas de grande importância. Não há tanto mistério nisso. Não é coincidência que os lobos e coiotes, os ursos e as mulheres rebeldes tenham reputações semelhantes. Todos eles compartilham arquétipos instintivos que se relacionam entre si e, por isso, têm a reputação equivocada de serem cruéis, inatamente perigosos, além de vorazes.

Minha experiência com a leitura foi a melhor possível, principalmente porque nunca quis ler muitas páginas de uma só vez. Li cada capítulo pausadamente durante diversos dias seguidos, o que proporcionou tempo para reflexão e sedimentação de diversas ideias. Recomendo fortemente que essa seja a estratégia de outras leitoras e de outros leitores.

É claro que as referências utilizadas pela autora refletem a sua origem mexicana/estadunidense. No entanto, seus exemplos podem ser facilmente transpostos para qualquer outra realidade no planeta. O saldo será sempre o uso da intuição e o melhor autoconhecimento sem o uso dos padrões exigidos pela sociedade. Será um processo orgânico e único de cada pessoa.

Uma mulher saudável assemelha-se muito a um lobo; robusta, plena, com grande força vital, que dá a vida, que tem consciência do seu território, engenhosa, leal, que gosta de perambular. Entretanto, a separação da natureza selvagem faz com que a personalidade da mulher se torne mesquinha, parca, fantasmagórica, espectral. Não fomos feitas para ser franzinas, de cabelos frágeis, incapazes de saltar, de perseguir, de parir, de criar uma vida. Quando as vidas das mulheres estão em estase, tédio, já está na hora de a mulher selvática aflorar. Chegou a hora de a função criadora da psique fertilizar a aridez.

Como aconteceu com o primeiro livro que li de Clarissa Pinkola Estés, não só adorei ter tido a experiência de lê-lo, como também recomendo que outras e outros o leiam. Já recomendei a uma amiga que o comprasse e devo voltar a recomendá-lo muitas outras vezes. A chance de releitura também é altíssima. Recomendo fortemente para mulheres e homens que querem entender o quão magnífico e complexo é o feminino- e a feminilidade.

O cão que guarda as estrelas – Takashi Murakami

O ano está acabando e eu ainda consegui ter uma nova experiência de leitura antes do seu fim. Pela primeira vez, li um mangá, os famosos gibis japoneses, aqueles que se lê de trás para frente e da direita para a esquerda.

O escolhido foi o tocante “O cão que guarda as estrelas” escrito por Takashi Murakami, um dos mais influentes artistas japoneses contemporâneos. Aqui ele conta a história do cãozinho Happy e de seu dono na primeira parte. Penso que ele havia se apegado tanto aos dois – do mesmo jeito que os leitores, aliás – e quis dar um desfecho mais belo e respeitoso para eles criando uma segunda parte, “Girassóis”, na qual resgata uma terceira personagem da sua vida tediosa.

Inspirada por esse belíssimo livro, desejo a todos vocês o amor de um cão, mesmo que não queiram ou não possam adotar um, ajudem algum cão durante o ano de 2022. O olhar que receberão encherá seus corações de alegria. Não morram sem ler “O cão que guarda as estrelas”, não fiquem sem essa grande experiência cheia de sensibilidade. Feliz Ano Novo!

O náufrago – Thomas Bernhard

Projeto 100 livros essenciais da literatura mundial #8

Há alguns anos atrás, li um livro muito bom chamado “Asco – Thomas Bernhard em San Salvador”, perceptivelmente inspirado no estilo do autor de “O náufrago”. “Asco” era um virulento ataque a San Salvador por um nacional que havia desistido de lá morar. Como os países latino-americanos têm problemas muito semelhantes, a identificação é muito grande e o tamanho do ódio demonstrado chega a ser engraçado. Com essa experiência, foi muito mais fácil entrar no clima de palavrório incessante proposto pelo escritor austríaco. E chego a dizer que foi suave a leitura. Quem não teve contato com uma obra virulenta, constituída quase que inteiramente de um parágrafo, pode encontrar maior dificuldade, mas uma vez em sintonia vai deslanchar.

“O náufrago” narra a história de três amigos pianistas, cujo relacionamento muda radicalmente quando um deles se revela um gênio da música, o pianista canadense, Glenn Gould, o que leva o narrador e Wertheimer a uma situação difícil. Como continuar a tocar piano ao testemunhar uma performance que sabem não poder superar, apesar de serem também dois virtuoses. Temos três homens brancos ricos, mas infelizes a sua maneira, incapazes de gozar das benesses que têm e que tampouco sabem perder.

Os caminhos que o narrador e Wertheimer seguem para tentar lidar com a absoluta superioridade do colega são desconcertantes, deprimentes; os dois são obsessivos tanto por Gould, quanto um pelo outro. Logo no início da narrativa sabemos que Wertheimer se mata algum tempo depois da saber da morte natural de Gould. O narrador tenta entender o que se passou entre os três como um bom filósofo, que é o que supostamente se tornou depois de abandonar o piano. A narrativa de Bernhard – como não poderia deixar de ser – critica muito, muitas coisas, por exemplo, a Suíça, Salzburgo (onde viveu), a Áustria (seu país e lugar onde, por força de seu testamento, suas peças não podem ser encenadas). No entanto, escreve tão bem que as reclamações não incomodam.

Curiosamente, o título original pode ser traduzido como “O perdedor”, o que também faz sentido, sendo esse o título da obra em inglês, “The loser”. Ser um “loser” é um grande defeito, uma grande ofensa em uma cultura tão capitalista quanto a atual.

Superem a dificuldade inicial que pode haver e mergulhem na fantástica escrita de Thomas Bernhard. O livro está na posição #90 na lista da revista Bravo! e, atualmente, na posição 2222 no site thegreatestbooks.org. Não deixem essa colocação desanimá-los, é um livraço com reflexões bem atuais e relevantes. Imagino porque a obra está em trajetória de esquecimento. Será que por tratar de questões de homens brancos e ricos, os leitores julgam que há coisas mais importantes para discutir? Se for o caso, que as questões opostas a essas sejam encaminhadas com sucesso pela humanidade.

O próximo livro do Projeto será minha segunda experiência com o autor:

Precursor do Modernismo na literatura inglesa, escritor de origem polonesa criou obra-prima sobre a loucura e o malogro da civilização colonialista.

200 crônicas escolhidas – Rubem Braga

Projeto 50 clássicos brasileiros #19

Sempre gostei de crônicas, então quando sorteei esta coletânea como próxima leitura fiquei muito empolgada ainda mais por se tratar de um autor que é considerado como o “sabiá da crônica”. O título é muito poético porque Rubem Braga adorava passarinhos e isso fica claro em diversas partes do livro.

Devo confessar preliminarmente que, entre um conde e um passarinho, prefiro um passarinho. Torço pelo passarinho. Não é por nada. Nem sei mesmo explicar minha preferência. Afinal de contas, um passarinho canta e voa. O conde não sabe gorjear nem voar. O conde gorjeia com apitos de usinas, barulheiras enormes, de fábricas espalhadas pelo Brasil, vozes dos operários, dos teares, das máquinas de aço e de carne que trabalham para o conde. O conde gorjeia com o dinheiro que entra e sai de seus cofres, o conde é um industrial, e o conde é conde porque é industrial. O passarinho não é industrial, não é conde, não tem fábricas. Tem um ninho, sabe cantar, sabe voar, é apenas um passarinho e isso é gentil, ser um passarinho.

O conde e o passarinho, 1935

Sua carreira como cronista se inicia nos anos 1930 e sua militância política antifascista e anti-imperialista fica muito clara em seus escritos. Nesta década foi casado com uma militante comunista e, não sei se por coincidência, o traço ateu aparece bastante em seus textos. Normalmente, culpando Deus ou algum santo pela desigualdades econômicas e sociais.

Ele atuou como diplomata, viajou ao exterior muitas vezes e até foi com a FEB para a Itália. Desta fase, gostei bastante da crônica Cristo Morto. O estilo de Rubem Braga abarca humor, ironia, tristeza e uma plêiade de outros estados de espírito. Ri muito com seu encontro com Belzebu a quem ele chama carinhosamente de Bebu. Apaixonado pela natureza encanta com a singela Um Pé de Milho, a triste Histórias de Zig, O Jabuti, Ele se chama Pirapora, História Triste de Tuim, O pavão.

Aqui e ali aparecem reflexões sobre a velhice (As velhinhas da Rue Hamelin, O senhor). Seus relacionamentos amorosos reais e platônicos sempre aparecem. Se poderia reduzir o autor em um adjetivo eu escolheria melancólico, mas não um melancólico chato, um daqueles que é capaz de enxergar a graça de algumas situações difíceis.

A maior parte da obra abarca crônicas publicadas entre 1935 e 1967. Somente as duas últimas foram escritas em abril de 1977. E estas são quase contemporâneas minhas, já que cheguei ao mundo um mês depois. O que ele descreve em Ela tem Alma de Pomba, eu vivi. Tive um excelente saldo com mais de 30 crônicas tocando meu coração, será ótimo relê-las no futuro. Deem uma chance às crônicas, conheçam Rubem Braga.

Para o próximo livro do Projeto, que será lido no ano que vem, lerei uma obra famosa de um escritor que dizem ter sido muito racista:

Clássico do memorialismo da literatura brasileira, livro de um médico é comparado à obra de outro mineiro, Guimarães Rosa.