País rico – Lima Barreto

Não há dúvida alguma que o Brasil é um país muito rico. Nós que nele vivemos, não nos apercebemos bem disso; e até, ao contrário, o supomos muito pobre, pois toda a hora e a todo instante, estamos vendo o governo lamentar-se que não faz isto ou não faz aquilo por falta da verba.

Nas ruas da cidade, nas mais centrais até, andam pequenos vadios, a cursar a perigosa universidade da calaçaria das sarjetas, aos quais o governo não dá destino, não os mete num asilo, num colégio profissional qualquer, porque não tem verba, não tem dinheiro. E o Brasil é rico…

Surgem epidemias pasmosas, a matar e a enfermar milhares de pessoas, que vêm mostrar a falta de hospitais na cidade, a má localização dos existentes. Pede-se a construção de outros bem situados; e o governo responde que não pode fazer porque não tem verba, não tem dinheiro. E o Brasil é um país rico…

Anualmente cerca de duas mil mocinhas procuram uma escola anormal ou anormalizada, para aprender disciplinas úteis. Todos observam o caso e perguntam:

– Se há tantas moças que desejam estudar, porque o governo não aumenta o número de escolas a elas destinadas?

O governo responde:

– Não aumento porque não tenho verba, não tenho dinheiro.

E o Brasil é um país rico, muito rico…

As notícias que chegam das nossas guarnições fronteiriças, são desoladoras. Não há quartéis; os regimentos da cavalaria não têm cavalos, etc., etc.

– Mas que faz o governo, raciocina Brás Bocó, que não constrói quartéis e não compra cavalhadas?

O doutor Xisto Beldroegas, funcionário respeitável do governo acode logo:

– Não há verba; o governo não tem dinheiro.

E o Brasil é um país rico; e tão rico é ele, que apesar de não cuidar dessas coisas que vim enumerando, vai dar trezentos contos para alguns latagões irem ao estrangeiro divertir-se com os jogos de bola como se fossem crianças de calças curtas, a brincar nos recreios dos colégios.

O Brasil é um país rico…

Marginália, 8-5-1920

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O lobo do mar – Jack London

O lobo do mar

Finalmente conheci o trabalho de Jack London com este “O lobo do mar” – me falta ainda ler “O chamado selvagem” e “Caninos brancos”.

“O lobo do mar” é uma excelente primeira leitura que narra como um náufrago é salvo por um navio caçador de focas comandado por um dinamarquês terrível e cruel chamado Wolf (lobo) Larsen. Humphrey Van Weyden vive de renda e dedica-se à leitura, quando faz uma viagem e termina como um náufrago. Os dois são opostos em quase tudo e a jornada de aprendizado de Weyden é cheia de aventuras, torturas, tempestades e outros problemas marítimos e psicológicos.

O relacionamento do homem com a natureza sempre rende grandes histórias e London parece bastante familiar com o tema, tendo ele mesmo passado por um naufrágio e ter trabalhado em um navio. Lerei os outros dois livros do autor citados no início com certeza.

Projeto “1000 lugares para conhecer antes de morrer”

Lugar #31: República do Panamá

Vida que olvida

Esta leitura foi uma indicação da Camila Navarro, criadora do projeto “198 livros”, o qual inspirou meu Projeto. E que indicação! Estou adorando as leituras da América Latina. Aliás, recomendo que quem talvez não queira ler sobre todos ou muitos países que faça um projeto de ler livros da América Latina que rende leituras maravilhosas.

“Vida que olvida” é um excelente livro escrito por Justo Arroyo, um premiado escritor e professor universitário. Ele narra a história da família do protagonista, intercalando-a com a história do Panamá, o que torna essa obra perfeita para o Projeto.

Pero en realidad no había mucho que celebrar: el siglo XIX que moría había sido testigo de la desintegración del proyecto de Bolívar, un siglo en que Colombia había pateado dos veces con Ecuador y había soportado veintidós guerras civiles mientras se preparaba para otra más que incluiría a Panamá. Un siglo XIX en que los peruanos se habían masacrado con los chilenos y los chilenos con los peruanos y bolivianos; en que los paraguayos se habían asesinado con los bolivianos y en que todo el mundo se había tragado un pedazo de Bolivia. Un siglo XIX que agonizaba precisamente con la quiebra del canal francés y con el surgimiento de Estados Unidos como dueño del mundo.

O advogado boliviano Pedro Regalardo, loiro de olhos azulíssimos, se apaixona por uma negra recém liberta, casa-se com ela e se mudam para o futuro Panamá, onde sua esposa se mistura com mais facilidade à população multiracial e cosmopolita da cidade de Colón em 1885. Bolivariano, ele sofre com as brutais interferências e golpes estadunidenses e com a consequente separação do Panamá da Grã-Colômbia. Este conflito acompanha a personagem por diversas décadas até o fim da obra que se passa em 1939.

Seu casamento, sua paternidade, seu trabalho, seu humor, suas opiniões, sua violência, seu estilo de roupas, seus vícios, tudo é usado pelo autor para explicar os panamenhos e a criação artificial do país devido à construção do canal. E como algo não orgânico cria uma sociedade porque há pessoas que amam, sofrem, vivem e morrem por lá. Talvez não uma sociedade saudável, mas uma que pode lutar para sê-lo. Economicamente, pelo menos, parece que estão conseguindo, levando-se em consideração seus IDH e índices de crescimento.

As outras personagens que vivem ao redor de Pedro Regalardo também são interessantíssimas e carregam a miscigenação não só no corpo como na alma (reparem na dificuldade das personagens em amar de forma saudável). Não deixem de ler – com projeto ou sem projeto – e refletir sobre a relação do pai com as três filhas nascidas no Panamá. Trágico e incrível.

Quem quiser ouvir os primeiros parágrafos na voz do autor, assista o vídeo abaixo:

Filme: A Qualquer Custo

a qualquer custo

Aproveitei para assistir a esse filme, que não havia assistido na época de suas indicações ao Oscar, devido a sua disponibilidade na Netflix. Chris Pine e o sempre intenso Ben Forster são dois irmãos que planejam assaltar bancos para salvar a propriedade da família em meio a grande crise financeira iniciada em 2008 e que são perseguidos por dois Texas Rangers. Um dos Rangers é interpretado por Jeff Bridges que está para se aposentar, apesar de ainda ter bons instintos, e adora provocar e criticar seu parceiro meio índio, meio mexicano que na verdade é seu único amigo.

Essas duas duplas se enfrentam diretamente somente no fim do filme em confrontos muito bem filmados e bem interpretados. Jeff Bridges está ótimo.

O melhor do filme, no entanto, é como o roteiro parte dos assaltos para discutir preconceitos raciais e a pobreza que os estadunidenses teimam em esconder do resto do mundo e/ou muitas pessoas se recusam a reconhecer que exista por lá. Outro importante assunto que o filme mostra é a grande violência que o armamento da população acarreta. Não só bandidos e polícia armados, mas também civis que acham que têm condições de “resolver” o assunto na bala. Será mesmo!? Tudo isso jamais esquecendo do desenvolvimento das personagens que é muitíssimo bem feito.

Grandes Filmes: Um corpo que cai

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“Um corpo que cai” compete diversas vezes com “Cidadão Kane” pela vaga de melhor filme de todos os tempos. É sem dúvida o melhor Hitchcock. O suspense traz James Stewart como o policial traumatizado e acrofóbico que é levado a seguir e se apaixonar pela belíssima Kim Novak nessa trama de mistério.

O suspense do filme é psicológico e se apoia na excelente fotografia (que nos permite não só assistir como experimentar sensorialmente a acrofobia) e no desempenho fragilizado do ícone James Stewart. A personagem principal passa grande parte do filme observando e nisso se assemelha ao público de cinema que passa o filme todo observando passivamente. E quantas vezes não nos apaixonamos por tramas, por atores, por diretores, por trilhas sonoras com essas experiências?

Não é um filme perfeito – como “Cidadão Kane” também não é -, mas tem momentos e técnicas muito bons.

 

Gênios: Blaise Pascal

blaise pascal

O jovem Blaise Pascal era tão precoce que, quando enviou uma demonstração matemática para a apreciação de René Descartes, o famoso pensador ficou convencido de que o trabalho havia sido feito pelo pai dele. Havia um refinamento que não poderia – pelo menos aos olhos de Descartes – ter partido de um rapaz de 16 anos.

O pai de Pascal, Étienne, tinha talentos para a matemática e havia sido o responsável pela educação de Blaise, mas era inegável que o filho, mesmo adolescente, era muito mais ágil intelectualmente que ele. Um garoto prodígio, sem dúvida.

Nascido na França em 1623, Blaise Pascal teria uma vida tão curta quanto brilhante. Inventor de rara habilidade, ele criou a primeira calculadora mecânica. O dispositivo, batizado de pascalina, era capaz de fazer contas de somar e subtrair, mas não se tornou um sucesso comercial em razão principalmente de seu altíssimo custo.

Ainda assim, a máquina é considerada o primeiro precursor do computador moderno. E Pascal a projetou e construiu quanto tinha apenas 19 anos.

O menino prodígio também contribuiu enormemente com outros campos de pesquisa, derrubando alguns tabus que duraram séculos, como a noção aristotélica de que “a natureza abomina o vácuo”. Realizando experimentos com mercúrio, ele demonstrou que a presença do vazio na natureza era uma possibilidade bem concreta – o espaço sideral que o diga.

Matemático fenomenal, Pascal também teve uma participação fundamental no desenvolvimento da teoria das probabilidades. Seus trabalhos eram de grande sofisticação e inteligência, mas o francês mantinha sempre um pé na realidade.

Em 1654, uma experiência mística desviou Pascal de sua carreira científica. Uma visão o levou a anotar diversas passagens bíblicas num papel e levá-las consigo no bolso aonde quer que fosse. De saúde frágil e recusando-se a se tratar por razões religiosas, ele morreu em 1662, aos 39 anos.

Superinteressante: Gênios decifrados