A mulher de trinta anos – Honoré de Balzac

Depois de muito tempo voltei a assinar o Kindle Unlimited e retomei o projeto de ler algumas obras de Balzac nos volumes disponíveis da Comédia Humana. O primeiro foi Ao Chat Qui Pelote, o segundo A Paz Conjugal e agora o terceiro talvez a história mais conhecida pelas pessoas, apesar de ter sido pouco efetivamente lida, A Mulher de Trinta Anos.

Na introdução, Paulo Ronái deixa claro que apesar de ser absurdamente conhecida, não só a história não é tão lida como não é o melhor exemplo da escrita de Balzac. É verdade, a maioria das pessoas não leu de fato a história e parece interpretar que as mulheres de trinta anos são desesperadas e isto não é o que o escritor quis. Na realidade, ele tinha uma amante mais velha e encantado com sua sensualidade e sexualidade resolveu fazer justiça às mulheres consideradas velhas por aquela sociedade. Ele tinha razão.

Quanto ao livro não ser o melhor exemplo de sua escrita, também é verdade, infelizmente. Balzac tentou transformar um excelente conto em um romance e para isso uniu duas histórias de seu portfólio, o resultado foi uma descontinuidade na personalidade da protagonista e na linha do tempo da história. Para compensar, no entanto, há momentos gloriosos de narrativa, que justificam sua fama.

Recomendadíssimo, não só como curiosidade, é um belo livro. Poderia ser melhor? Claro, mas está longe de ser ruim.

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João Cabral de Melo Neto e Morte e Vida Severina

Situado na terceira geração do Modernismo, o recifense João Cabral de Melo Neto (1920-1999) consagrou-se como um dos principais poetas brasileiros. É, pelo lado materno, primo do sociólogo e escritor Gilberto Freyre (1900-1987), enquanto, pela raiz paterna, tinha parentesco com Manuel Bandeira. Em princípio, sua poesia sofre influência surrealista pela via do colega Murilo Mendes, como se percebe na primeira obra, A Pedra do Sono, de 1942, em que emprega conceitos freudianos e elementos oníricos. Com O Engenheiro (1945), dá-se início ao estilo que João Cabral levaria por toda a vida: textos claros e objetivos, despojados de qualquer ornamentação. Nos já maduros versos de O Cão sem Plumas (1950), que fala do rio Capibaribe, a temática passa a privilegiar também a perspectiva social.

Embora fizesse parte da chamada Geração de 45, que procurou desbastar os “excessos” do Modernismo por meio de um rigor formal de moldes parnasiano-simbolistas, João Cabral soube superar os limites dessa vertente. O propósito de Cabral em cortar dos versos todos os elementos supérfluos, inclusive os musicais, na busca por uma nova objetividade, empresta à sua poesia uma áspera expressividade de grande frescor.

Em Morte e Vida Severina, longo poema que saiu do livro Duas águas, de 1956, harmonizam-se forma e temática social. Neste auto de natal pernambucano, o autor trata da luta de Severino, um retirante do agreste, pela sobrevivência. Musicado por Chico Buarque de Holanda, o poema fez grande sucesso no teatro, no Brasil e no exterior.

Revista Bravo!, adaptado

Projeto “1000 lugares para conhecer antes de morrer”

Lugar #55: Reino da Tailândia

Jasmine nights

Foi uma grande coincidência que diversos dos livros da Ásia tenham como protagonistas crianças. Este incrível “Jasmine Nights” é um deles.

S. P. Somtow consegue costurar magistralmente a cultura tailandesa com as inúmeras referências à cultura ocidental que começam pelo protagonista rejeitar seu nome tailandês e só responder quando o chamam por ‘Justin’, além de só falar em inglês. Seu camaleão de estimação se chama Homer (Homero) e por aí vai – referência em cima de referência – sem nos fazer sair da Tailândia por isso nem um minuto. É um grande feito.

“Jasmine Nights” é um romance de formação semiautobiográfico que se passa em 1963 e tem como ponto forte o bom-humor sem fugir de assuntos muito sérios, como o racismo estadunidense, preconceito social, guerra, divisão de classes e homossexualismo sob o olhar de uma criança/adolescente que tenta entender o mundo com a ajuda dos livros clássicos – o que faz dele um atrativo extra para quem é apaixonado por literatura. Não à toa, a crítica chegou a considerar Somtow como o Salinger da Tailândia.

Recomendo fortemente.

Acho bastante provável que consiga completar o projeto ainda esse ano, já que faltam só 5 lugares/livros para alcançar os 60 a que me propus. Ufa!

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Se Deus me chamar não vou – Mariana Salomão Carrara

Maria Carmem é uma pré-adolescente de 11/12 anos com um grande talento para a escrita. Incentivada por sua professora pratica para ser escritora escrevendo um livro sobre o seu ano.

Precoce, se preocupa com questões bastante complexas, muito influenciada pelo negócio dos pais, uma loja de equipamentos hospitalares, uma loja que vende “partes de velhos”. Essa proximidade com o fim de todos nós a faz analisar sua própria vida e a vida da família, que também passa por mudanças significativas e abala ainda mais suas estruturas psicológicas.

Mariana Salomão Carrara logra em mostrar o quão complicada e solitária é a vida de uma pré-adolescente, ao contrário, do que os adultos costumam reconhecer. Leia e reencontre a sua criança, pode ser que algumas coisas que você achava que estavam resolvidas precisem de mais uma atenção.

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Northern Lights – Philip Pullman (A bússola de ouro)

Fronteiras do Universo – His Dark Materials

Essa série de livros infanto-juvenis é uma das falhas na minha vida de leitora segundo inúmeras pessoas com quem já conversei. Como começou a ser publicada quando eu já estava no final da adolescência, não dei atenção alguma aos livros ou ao filme. Dessa forma, só conheci a garota Lyra agora.

A premissa é bem interessante, num mundo muito parecido com o nosso, cada pessoa possui um inseparável companheiro, um dæmon (uma mistura de melhor amigo e manifestação da alma de alguém) que pode se manifestar sob qualquer bicho até o amadurecimento, quando assume a forma de um só animal. Só isso já aquece o coração dos leitores porque seria o fim da nossa solidão.

Lyra, uma menina de 11 anos que não sabe muito sobre seus pais se vê envolvida em conspirações religiosas e científicas que representam um grande perigo para crianças e seus dæmons embarcando em uma grande aventura envolvendo bruxas e ursos guerreiros.

O livro possui duas sequências: A faca sutil e A luneta âmbar que serão lidas no futuro. Recomendo, mas aviso que seu coração mesmo que adulto vai se partir diversas vezes.

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Filme: Rede de Ódio

Rede de ódio

Filme polonês atualíssimo sobre a cultura do cancelamento via redes sociais, além de uso de fake news. A vida virtual está tomando conta da vida real e nos transformando em monstros. O ator principal está excelente na pele de um psicopata ambicioso sem limites, candidato a entrar na lista dos grandes vilões do cinema. Filme imperdível. Disponível na Netflix.

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O Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta – Ariano Suassuna

Projeto 50 Clássicos Brasileiros #10

Romance d'A pedra do reino

Só de olhar a capa e o número de páginas de “Romance d’A Pedra do Reino” já sabemos que se trata de um épico – um épico cheio do bom-humor de Ariano Suassuna (como pode ser atestado por vídeos com entrevista suas) e de sanguinolência (como é de se esperar de uma aventura que se passa no nordeste à época do cangaço). O próprio autor declara no início do livro que seu mundo do Sertão é mítico.

O primeiro calhamaço do Projeto e minha primeira experiência com Ariano Suassuna já começa interessante com a dedicação da obra à memória de seu pai, João Suassuna, ex-governador da Paraíba assassinado em 1930 no Rio de Janeiro quando o autor tinha 3 anos por vingança pela morte de João Pessoa, que foi governador da Paraíba logo depois de Suassuna. Essa homenagem dá o tom de toda a obra: os assassinatos, as vinganças, os embates, as “espertezas” para enganar o inimigo, as emboscadas, a vontade de honrar o nome da família. Além da homenagem ao pai, a obra também é dedicada a escritores e poetas nordestinos, sendo que alguns inclusive tem trechos de suas obras citados.

O romance é dividido em 5 partes (Prelúdio, Chamada, Galope, Tocata e Fuga) – todas remetendo à musica – e cada uma delas é dividida em folhetos. O narrador desse cordel gigantesco/romance de cavalaria quixotesco e sertanejo inicia seu relato de dentro da cadeia e o pretende um memorial para explicar para os brasileiros como foi parar ali sendo de uma dinastia de reis verdadeiros, os Ferreira Quaderna. Ele considera os Bragança portugueses debochados que usurparam o que lhe era de direito.

A segunda parte se dedica a mostrar o objetivo de Dinis em se tornar além de Rei, o autor do grande romance formador brasileiro e, para isso, começa por trocar ideias com seus dois professores: um negro, advogado, orgulhoso de seus antepassados, de esquerda e, outro, branco, promotor e completamente reacionário. Junto com eles inaugura a Academia de Letras dos Emparedados para terem a primazia sobre a Academia de Letras que indubitavelmente haveria na Capital no futuro.

A terceira parte foca mais nele enquanto pessoa, seu trabalho, sua vida amorosa e finalmente temos o início de seu interrogatório feito por um corregedor sedento para achar informações sobre ameaças comunistas no sertão. Temos algumas reviravoltas e uma sequência de duelo de chorar de rir (literalmente).

A quarta parte traz um corregedor mais firme no interrogatório de Quaderna e o pressiona em diversos momentos. Aqui temos muito mais detalhes sobre a vida dele no dia-a-dia e como foi urdindo seu sonho de ser coroado.

A última parte é bastante melancólica em comparação com as outras. Tanto no tom adotado pelo autor quanto pelo final em si. É preciso dizer que depois de quase 800 páginas eu queria saber mais e isto ocorre porque Ariano o pensava como a primeira parte de uma trilogia da qual desistiu. Posteriormente, a adapta para que ela sirva de introdução ao Romance de Dom Pantero no Palco dos Pecadores, o qual só terminou em 2014, ano de sua morte.

E continuarei no nordeste com o próximo livro:

Auto de natal pernambucano, poema combina estrutura rigorosa e temática popular.

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