A paciente silenciosa – Alex Michaelides

“A paciente silenciosa” teve um hype muito grande há uns 3 anos atrás e foi bom tê-lo guardado para um momento como o atual em que as leituras pouco me prendem e chego a ter preguiça de pegar livros para ler. Histórias com assassinatos misteriosos são sempre leituras fluidas devido à minha curiosidade inata. 

Uma artista plástica talentosa é condenada por assassinar o marido e para de falar desde então sendo internada em um estabelecimento prestes a ser fechado. Um psicoterapeuta fica obcecado pelo caso e muda de emprego para conseguir tratá-la. 

Não é uma obra maravilhosa, mas tem seus momentos, como a narrativa do ponto de vista psicológico do profissional e uma reviravolta que conversa com uma das grandes de Agatha Christie. Passatempo divertido.

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História da sua vida e outros contos – Ted Chiang

Em 2016, quando assisti ao magnífico filme “A chegada” de Dennis Villeneuve, fiquei impressionada com a história uma grande reviravolta com relação a outros filmes de contato com extraterrestres. Desta vez, os chamados para entrar em contato com os aliens foram linguistas. Além disso, a história ainda trazia outro elemento de ficção científica que finalizava a história muito bem.

De lá para cá, fiquei sabendo que o filme se baseou em um conto deste livro, “História da sua vida” de Ted Chiang e que o livro seria muito bom. Pois bem, li, gostei, mas não achei isso tudo. (Para variar… )

Chiang trata a ficção científica com muitos elementos surpreendentes, filosóficos e que te fazem pensar e os amarra com um pé no chão muito grande nos desfechos. Eu gosto bastante disso, mas me envolvi pouco com as personagens e isso é um fator muito relevante para minhas experiências de leitura.

Os destaques do livro são “A torre da Babilônia”, “História da sua vida” (que baseou o filme “A chegada”) e “Gostando do que vê: um documentário”.

Lavoura Arcaica – Raduan Nassar

Projeto 50 clássicos brasileiros #21

Estou em meio a uma ressaca literária e até para escrever este post posterguei por três meses. Estou adiando leitura até de histórias em quadrinhos para vocês terem uma ideia! Mas vamos lá.

Quando iniciei esse projeto, “Lavoura Arcaica” era dos mais esperados livros da lista porque há décadas atrás achei o filme maravilhoso. Estranhamente, mesmo começando-o com a expectativa de encontrar um novo favorito e do belo início liricamente sexual, não gostei tanto. Reconheço que é um bom livro, mas não fiquei encantada. Tive a impressão de que havia coisas que eu não estava entendendo sobre aquela família libanesa, acho que precisaria ter mais conhecimento daquele universo para entender melhor todos os detalhes daquelas personagens. Eu estava deslocada na festa.

Refletindo sobre minhas preferências literárias, cheguei à conclusão de que não sou tão fã de poesia justamente por ela ser tão subjetiva e para ser degustada em camadas mais profundas, exija saber mais sobre quem escreve. Pesquisar sobre um autor é sempre benéfico para a experiência de leitura, eu sei, mas me parece que na poesia um nível maior de afinidade entre escritor e leitor é exigido. Acho que isso se aplica a narrativas poéticas também, no meu caso. Do contrário, como explicar que adorei “Aos 7 e aos 40” do Carrascoza, mas não curti “Caderno de um ausente” tanto assim?

Enfim, “Lavoura Arcaica” não se tornou um favorito, mas tem passagens muito belas que, infelizmente, não entraram para baixo da minha pele como deve acontecer com os apreciadores da obra. Leia e descubra o que fica para você desse clássico nacional. Na lista da revista Bravo! Aparece na posição número 8. Acho que para mim estaria depois da posição 20. Teaser do próximo livro, que esperamos seja lido ainda este ano – dedos cruzados:

Introspectiva ou existencial por excelência, a obra supera a classificação de “psicológica” para questionar a própria narrativa e criar uma metafísica da linguagem.

Charles Baudelaire e As flores do mal

Charles Baudelaire (1821-1867) é conhecido em todo o mundo pela alcunha de “poeta maldito”. Maldito pela sífilis, pela predileção pelas drogas, pela sexualidade exacerbada e pela defesa de todos esses vícios numa poesia agressiva e existencial. Ele é o “poeta da arte pela arte e da busca da forma perfeita”, diz a crítica Glória Carneiro do Amaral.

Baudelaire viveu quando o romantismo era o gênero literário por excelência. É a um romântico parnasiano, Théophile Gaultier, a quem ele dedica As Flores do Mal. É nesse caldo pós-romântico e prelúdio do simbolismo que Baudelaire buscará sua nova poesia. Por isso, para muitos, ele é o pai da poesia moderna, o primeiro a sublimar a matéria decadente da realidade por meio da depuração da linguagem romântica. Ou seja, o primeiro a dizer o indizível com a forma do belo.

O livro abre com um chamado “ao leitor”, conclamando-o a aceitar a realidade decrépita – em que Baudelaire não perdoa o “hipócrita leitor, meu igual, meu irmão”. O prólogo é já bastante claro, ao pontuar a importância atribuída pelo autor à vivência do mundano como forma de alcançar a redenção: “Se o estupro, o veneno, o incêndio e a punhalada não puderam bordar com seus curiosos planos a trama banal vã dos destinos humanos, é que nossa alma enfim não é bastante ousada”.

E ousadia não faltava ao poeta maldito. Primeiro, o livro ganhou o título provocador de As Lésbicas, sendo em seguida rebatizado de Os Limbos. As Flores do Mal, com esse título, só seria lançado depois, em 1857, rendendo processos judiciais infindáveis ao autor, que defendia a moralidade de sua obra contra a falsa moralidade da França do século 19. Imaginar Baudelaire em um tribunal, livro na mão, defendendo a dignidade, é uma cena restrita aos caprichos da história.

O poeta era, acima de tudo, um boêmio. Em companhia de outros estudantes, aficionados por literatura e tudo quanto fosse considerado libertino, viveu entre garrafas de vinho, homens e mulheres nus sobre camas, próprias ou de todos os bordéis do Quartier Latin, em Paris. É essa a matéria de sua poesia e esse o cenário de sua obra – onde o poeta adquiriria a sífilis que o levaria à morte e de onde ele extraiu inspiração para As Flores do Mal.

Dividida em seis partes, o livro alterna duas assertivas principais: o bem e o mal, o divino e o satânico, o espiritual e o animal. Em O Vinho, terceira parte do livro, o poeta faz odes ao vinho do solitário, do assassino, dos amantes – bebida que é o combustível do artista, condição indispensável para que este possa brotar “para Deus como uma rara flor”.

Na primeira parte, Ideal e Spleen, o autor parece retratar suas experiências pessoais, em odes às musas e à beleza pura. Bebe da fonte clássica dos mitos gregos, utilizando-os como alegoria e metáfora da vida mundana. E se aproxima sempre do fantasma do suicídio. O tema é retomado também nos últimos poemas, em que Baudelaire recita a morte dos amantes, dos pobres, dos artistas e prenuncia “a viagem”, inevitável, a única fuga que um mundo voltado para o mal, mas que luta “para o novo encontrar no mais desconhecido”.

Revista Bravo!

O médico e o monstro – Robert Louis Stevenson

Dos três livros protagonizados por monstros clássicos que li (“Frankenstein”, “Drácula”), “O médico e o monstro” é, sem dúvida, o mais fraco. A narrativa genial de Mary Shelley e o encanto aterrorizante da narrativa epistolar de Bram Stoker fazem com que Stevenson perca feio ao não conseguir envolver os leitores como os outros fazem.

Um renomado médico e um ser atarracado e irascível têm uma proximidade que intriga os amigos daquele e toda a sociedade. A narrativa é curta, mas não convence. As sacadas psicológicas parecem pueris para os dias de hoje. Não acho que seja um livro indispensável. Talvez seja indispensável saber que influenciou na construção de personagens famosos nos quadrinhos e em outras mídias.

Doramar ou a Odisseia – Itamar Vieira Junior

Não é segredo o quanto gostei de “Torto Arado” de Itamar Vieira Junior, afinal foi o último livro a entrar para a minha seleta lista de livros favoritos da vida. Além do tema e da feliz escolha das protagonistas, personagens que há muito deveriam ser retratadas em livros no país, o escritor demonstrou sensibilidade e capacidade de criar personagens vilipendiadas, mas humanas o suficiente para possuírem falhas e força para mudar.

Depois disso, recebi “Doramar ou a Odisseia” como cortesia da editora Todavia ano passado, mas senti receio de lê-la com “Torto Arado” ainda tão presente na minha memória. Decidi ler agora e, sim, eu estava certa em esperar. Composto de sete contos antes encontrados em “A oração do carrasco”, e mais cinco novos, “Doramar…” deixa a desejar. Os temas caros ao autor estão presentes, mas falta arte na elaboração das narrativas, me parecem por vezes caricatas, por vezes identitárias, por vezes rasas. Cheguei a duvidar que eram do mesmo autor de “Torto Arado”.

No entanto, ao ler o penúltimo conto reconheci a voz literariamente artística de Itamar. Mais uma vez uma mulher conduz a narrativa, possui uma arma importante para a história e traz um Brasil profundo aos holofotes que já deveria ter recebido há séculos. Só este conto, chamado “Voltar”, salva a publicação, mas temos um belo conto para voltar a ler no futuro. Continuo esperando o novo romance do autor que me parece se dá melhor com narrativas um pouco mais longas.

O silêncio dos inocentes – Thomas Harris

Quando assisti a “O silêncio dos inocentes” há décadas atrás, adorei a experiência. O canibal interpretado por Anthony Hopkins causava arrepios e atraía interesse por sua inteligência e frieza. Foi um dos poucos filmes da história a ganharas 5 principais categorias do Oscar: filme, direção, roteiro, atriz e ator. Hopkins criou um dos maiores vilões do Cinema com pouquíssimos minutos de tela.

Ao ler a obra que originou esse clássico do cinema, fiquei menos incomodada com o canibal – testemunho do incrível trabalho do ator e da trilha sonora arrepiante. O assassino procurado pela estreante agente Starling, Buffalo Bill, é de causar enjoos em qualquer um, principalmente, em mulheres grandes. Ele, sim, está melhor explicado e repugnante no livro.

Os finais têm suas divergências. O de Lecter é melhor no filme e o de Clarice, melhor no livro. Vale a experiência seguida do filme para relembrar o encanto e o horror.

Raduan Nassar e Lavoura Arcaica

Sétimo de dez filhos de um casal de imigrantes libaneses, Raduan Nassar nasceu em 27 de novembro de 1935 em Pindorama, cidade do interior de São Paulo. Seu destino era ser um dos maiores escritores brasileiros. Ou um dedicado criador de galinhas…

Em 1949 mudou-se com a família para Catanduva para dar prosseguimento aos estudos primários, deixando para trás sua coleção de pombas, citada anos mais tarde em Lavoura Arcaica, seu primeiro livro publicado. Nassar chegou a ingressar simultaneamente nos cursos de direito e de letras. Graduou-se em filosofia em 1963.

Os primeiros rabiscos de Lavoura Arcaica foram escritos em 1968, mas a retomada do trabalho só ocorreu em 1974. A fase de produção mais intensa se deu em poucos meses. Quando foi lançado, em 1975, o romance causou impacto por seu estilo narrativo, que apresenta prosa exígua e intensa, a pontuação peculiar, compondo um quadro psicológico denso, apoiado numa linguagem poética e alucinada. A narrativa em primeira pessoa (não-linear e complexa, mas de uma riqueza estimulante) se faz por meio do personagem André, que decide abandonar a roça, onde mora com a tradicional e numerosa família de origem sírio-libanesa, a mudar-se para uma pequena cidade. O rapaz pretende fugir da rigidez moral a que é submetido e de uma paixão incestuosa pela irmã. Uma das grandes inovações estilísticas está na narração elíptica do protagonista, em que o assoberbante fluxo de consciência se efetua por meio de meticulosa escolha vocabular.

O livro ganhou prêmios da Academia Brasileira de Letras, da Associação Paulista de Críticos da Arte, além do Prêmio Jabuti (Revelação de Autor), da Câmara Brasileira do Livro. Lavoura Arcaica, que o autor afirma ser uma parábola do Filho Pródigo às avessas, foi publicado também em espanhol, francês e alemão. Em 1998, o livro foi transformado em filme, dirigido por Luiz Fernando Carvalho.

Assustado com tamanho sucesso, o escritor resolveu abandonar a literatura, passando a criar galinhas numa fazenda que adquiriu no Sudoeste de São Paulo. Atavam-se, assim, as duas pontas de sua vida.

Revista Bravo!

O grande Gatsby – F. Scott Fitzgerald

Projeto 100 livros essenciais da literatura mundial #11

Honestamente, não estava muito empolgada para “O grande Gatsby” porque já havia visto o filme e por F. Scott Fitzgerald fazer parte da geração perdida. Eu li “O sol também se levanta” em 2019 e não fiquei impressionada, mas, felizmente, Fitzgerald supera Hemingway ao retratar indivíduos perdidos depois da Primeira Guerra.

Enquanto Hemingway traz personagens desinteressantes que só pensam em afogar as mágoas em bebidas, as de Fitzgerald fazem o mesmo, mas têm mais personalidade e ambições. Não que sejam pessoas boas e equilibradas, mas apresentam mais nuances. Outro ponto que me impressionou no autor foi a atenção que deu às agitações das milícias hitlerianas em plena década de 1920, época em que muitos julgavam Hitler como apenas um bufão sem maior importância. (Sabemos do erro enorme e ficamos preocupados ao saber das ligações do atual Presidente do Brasil com milícias). O pensamento de supremacia racial está presente em uma das personagens principais do romance, Tom Buchanan. É bom lembrar que “O grande Gatsby” foi publicado em 1925.

Talvez a grande temática do livro seja os sonhos acalentados por pessoas durante muito tempo e de como se esforçam para alcançá-los em uma sociedade impiedosa e pouco afeita a aceitar o novo/diferente, mesmo que rico.

Fitzgerald, um dos escritores mais importantes da Geração Perdida, viu-se seduzido pelas aparências cintilantes da Era do Jazz da década de 1920, enquanto ao mesmo tempo, tomava plena consciência de seus valores morais decadentes e do vazio na promessa de uma vida melhor para todos.

O Livro da Literatura

O próximo livro me tirará da minha zona de conforto, já que não curto poesias:

Em um dos primeiros livros da poesia moderna, autor buscou no mundanismo o caminho para chegar à redenção

Filme: Retrato de uma jovem em chamas

Esqueça os clichês burros do tipo “filme francês é chato” e “outro filme com lésbicas!?” A diretora e roteirista Céline Sciamma trata o relacionamento das duas com vagar e zelo sem chatices ao mesmo tempo em que discute a condição feminina no século XIX sem pieguices. O filme é realmente uma pintura que faz com que o espectador investigue sua alma pelos seus amores e por respeito às protagonistas feitas com muita verdade pelas atrizes. Filmaço!